ESTADOS UNIDOS E CHINA O que está em jogo na nova rodada de negociações ESTADOS UNIDOS CHINA
Ilustração original — a relação econômica entre as duas maiores potências do mundo volta ao centro do debate.

O que está em jogo na visita de Xi Jinping aos Estados Unidos

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Há pouco mais de um ano, Washington e Pequim trocavam ameaças de tarifas e disputavam o controle sobre minerais críticos. O cenário mudou de figura desde então: hoje, as duas maiores economias do planeta caminham — ainda que com desconfiança — para uma aproximação em setores estratégicos, e chegam a discutir pontos em comum sobre os riscos da inteligência artificial. É nesse contexto que o presidente chinês, Xi Jinping, desembarca em Washington nesta semana para uma visita de Estado que vai testar se essa espécie de “degelo” econômico tem fôlego para continuar.

De acordo com reportagem da Axios, o simples fato de essa viagem estar acontecendo já funciona como um recado às duas nações e ao resto do mundo. Edgard Kagan, ex-funcionário do Departamento de Estado americano e hoje analista do Center for Strategic and International Studies, resumiu o momento afirmando que, por ora, nenhum dos dois lados tem interesse em uma nova escalada nas tensões comerciais.

Por que essa visita importa tanto

As duas potências encontraram, ao longo do último ano, mais pontos de convergência do que costumavam ter — mas isso está longe de significar que as disputas de fundo foram resolvidas. É mais correto enxergar o momento como uma pausa estratégica do que como uma reconciliação definitiva. Do lado chinês, Xi precisa de espaço para lidar com uma economia doméstica que segue mostrando sinais de fadiga. Do lado americano, Trump aposta que o tempo jogue a favor dos Estados Unidos justamente nas áreas mais sensíveis: inteligência artificial e minerais críticos.

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  • Esta é a primeira visita de Estado de Xi aos EUA em mais de dez anos.
  • Ele chega nesta semana para uma agenda de três dias, cerca de quatro meses depois de Trump ter viajado a Pequim.
  • Assim como Trump levou executivos americanos à China em maio, Xi também deve desembarcar acompanhado de uma comitiva de empresários chineses.
Inteligência artificial no centro do diálogo Ilustração original
Chips avançados e segurança em IA se tornaram um novo capítulo — e um novo ponto de atrito — na relação entre os dois países.

Inteligência artificial: cooperação com limites bem claros

Um dos temas centrais dessa nova rodada de conversas é justamente a inteligência artificial. Segundo um alto funcionário da Casa Branca ouvido pela Axios, os dois governos estão avaliando formas de gerenciar riscos compartilhados ligados a modelos cada vez mais avançados — e cada vez mais difíceis de prever.

Nos bastidores, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, se reuniu com o vice-premiê chinês He Lifeng na sede do JPMorgan Chase, em Manhattan, para preparar o terreno antes do encontro entre os dois presidentes. De acordo com Bessent, os Estados Unidos propuseram a criação de um sistema para notificar a outra parte sempre que um incidente envolvendo IA atingir um nível considerado ameaça à segurança nacional. Também estaria em discussão um canal formal de diálogo bilateral dedicado exclusivamente ao tema.

Ainda assim, vale o alerta: essa cooperação tem limites bem desenhados. Os Estados Unidos seguem decididos a manter vantagem tecnológica sobre a China, e Jamieson Greer, principal negociador comercial de Trump, já deixou claro que as restrições a chips avançados e a equipamentos de fabricação de semicondutores nem entraram na pauta das conversas recentes.

Investimento chinês em solo americano?

Outro ponto que deve ganhar destaque é se a China está disposta a colocar mais capital dentro dos Estados Unidos — algo que Trump já sinalizou publicamente que gostaria de ver acontecer. Depois do encontro de maio entre os dois líderes, foi criado o U.S.-China Board of Investment, um fórum pensado justamente para destravar esse tipo de discussão.

Só que a ideia de investimento chinês na indústria automotiva americana já provoca resistência entre montadoras dos Estados Unidos. E, segundo um funcionário da Casa Branca, as restrições de segurança nacional que hoje limitam esse tipo de aporte continuam integralmente em vigor.

Terras raras e a trégua comercial em xeque Ilustração original
O fluxo de minerais críticos chineses para os EUA é peça-chave de um acordo que vence em novembro.

O prazo que pode virar dor de cabeça: minerais críticos

Trump deve pressionar a China para manter o fluxo de terras raras e minerais críticos para compradores americanos. Segundo um funcionário da Casa Branca, o desempenho de Pequim nessas exportações não tem sido satisfatório nos últimos meses.

O tema é o coração da chamada trégua comercial de Busan, fechada no fim do ano passado: os Estados Unidos seguraram novas tarifas em troca da garantia chinesa de manter esses minerais fluindo normalmente para o mercado americano. O problema é que esse acordo vence em 10 de novembro, e ainda não está claro se as duas partes vão concordar em renová-lo — o próprio funcionário da Casa Branca evitou fazer qualquer previsão sobre o desfecho.

O “coringa” da reunião: o Irã

Segundo Kagan, o Irã é o verdadeiro fator-surpresa desse encontro. A China é a maior compradora de petróleo iraniano do mundo, o que a torna peça central na chamada Operação Economic Outcast, estratégia americana voltada a cortar as fontes de receita de Teerã.

Até agora, o governo dos Estados Unidos tem evitado suas medidas mais duras contra Pequim: mirou empresas chinesas específicas e refinarias menores que facilitam o comércio com o Irã, mas ainda não sancionou os grandes bancos chineses. Resta saber até que ponto Trump está disposto a apertar o cerco sem colocar em risco a trégua econômica que já dura mais de um ano.

Fique de olho

  • Se Trump e Xi vão sinalizar uma prorrogação da trégua de Busan antes do vencimento em 10 de novembro.
  • O quanto avança, na prática, o diálogo bilateral sobre segurança em inteligência artificial.
  • Se algum sinal concreto de investimento chinês nos Estados Unidos vai efetivamente sair do papel.
  • Até onde Washington está disposto a ir contra Pequim por causa da questão do Irã.

No fim das contas, a visita de Xi Jinping funciona como um termômetro. Ela não deve resolver as grandes divergências entre as duas potências, mas vai mostrar se há vontade política suficiente, dos dois lados, para manter a economia global longe de um novo capítulo de instabilidade — pelo menos por enquanto.

Com informações de Courtenay Brown / Axios.

Fontes